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Ansiedade: sintomas, quando buscar ajuda e tratamentos

Ansiedade 8 min de leitura Publicado em · atualizado em Por Thaize Netto · CRP 06/127649
Mulher com as mãos no rosto durante uma sessão de psicoterapia

Você já sentiu o coração disparar antes de uma reunião importante, ou ficou virando na cama pensando em tudo o que precisa fazer amanhã? A ansiedade é uma resposta de antecipação a ameaças ou desafios, e todo mundo a conhece. Ela merece avaliação quando se torna persistente, difícil de manejar ou passa a interferir no sono, no trabalho e nas relações. Sentir ansiedade não significa, por si só, ter um transtorno.

Neste texto, converso de forma clara sobre o que é a ansiedade, como ela aparece no corpo, nos pensamentos e nos comportamentos, quando deixa de ser uma companheira normal da vida e quais caminhos a ciência oferece para cuidar dela.

O que é ansiedade?

A ansiedade é, antes de tudo, uma reação natural do ser humano. Funciona como um sistema de alerta que nos prepara para situações de perigo ou desafio: uma sensação de apreensão, medo ou tensão diante de algo desconhecido ou que consideramos ameaçador. Em doses moderadas, ela nos ajuda a nos preparar e a agir. (Coêlho e Tourinho, 2008)

O problema começa quando esse alarme dispara de forma exagerada, desproporcional à situação real, e passa a atrapalhar o dia a dia. Quando é persistente e difícil de controlar, pode haver um transtorno de ansiedade. Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (2017), cerca de 9,3% da população brasileira convive com algum transtorno de ansiedade, uma das proporções mais altas entre os países avaliados.

Quando a ansiedade deixa de ser uma reação esperada?

Uma entrevista, uma mudança ou uma decisão importante podem provocar ansiedade. O problema não é apenas sentir medo ou preocupação: é a intensidade, a persistência e o prejuízo que essas experiências produzem. Evitar atividades importantes por receio do desconforto também merece atenção. O diagnóstico depende de avaliação profissional, e não de uma lista de sintomas encontrada na internet. (NIMH)

Os muitos rostos da ansiedade: quais sintomas podem aparecer?

A ansiedade raramente é só “psicológica” ou só “física”: ela se manifesta de forma integrada. Reconhecer seus diferentes rostos é um ponto de partida para conversar com um profissional, não uma confirmação diagnóstica. (NIMH)

  1. No corpo (o corpo em alerta). Coração acelerado, respiração ofegante, suor excessivo, tremores, tensão muscular que parece não passar, cansaço constante, dores de cabeça, náuseas e insônia. É como se o corpo ficasse ligado no modo “lutar ou fugir”. (Lopes e Santos, 2018)
  2. Nas emoções e nos pensamentos (a mente em tormenta). Preocupação que não cessa, sensação de que algo terrível vai acontecer, dificuldade para se concentrar, medo de perder o controle, irritabilidade e pensamentos negativos que se repetem em looping. (Soares et al., 2024)
  3. No comportamento (a vida que se encolhe). Inquietação, agitação e, sobretudo, a evitação: deixar de fazer coisas, de ir a lugares ou de encontrar pessoas para não sentir o desconforto. A evitação alivia na hora, mas costuma manter a ansiedade viva. (NIMH)

Esses sinais também aparecem na adolescência e na juventude, muitas vezes confundidos com “fase” ou “dramatização”, e podem vir junto com tristeza e desânimo. Por isso, vale observar mudanças no sono, no rendimento e no convívio. (Batista e Oliveira, 2005; Oliveira et al., 2023)

O caminho para se sentir melhor: como a ansiedade é tratada

A ansiedade tem tratamento, e há mais de um caminho com respaldo científico. O cuidado mais completo costuma ser o que olha para a pessoa como um todo, e não apenas para o sintoma.

Psicoterapia: um mapa para a mente

A psicoterapia permite examinar padrões de pensamento e comportamento, desenvolver habilidades e reduzir a interferência do medo na vida cotidiana. É uma das abordagens com maior respaldo científico para os transtornos de ansiedade. (NIMH)

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é focada e de duração limitada, e funciona como um treino para a mente. Você aprende a mapear seus padrões de pensamento e a identificar crenças distorcidas que alimentam a ansiedade, como a catastrofização (esperar sempre que o pior aconteça). Com a ajuda do terapeuta, desenvolve a reestruturação cognitiva: a habilidade de questionar esses pensamentos e substituí-los por interpretações mais realistas e úteis. Ao mesmo tempo, enfrenta de forma gradual, segura e planejada as situações que vinha evitando, e ensina ao próprio cérebro que o perigo previsto não se concretiza. (Moura et al., 2018)

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) trabalha a relação com pensamentos e emoções, articulando abertura às experiências internas e ações orientadas por valores. Aceitação, nesse contexto, não significa conformismo: significa ampliar as possibilidades de agir sem exigir que todo desconforto desapareça primeiro. (Arch et al., 2012)

Um ensaio clínico com 128 participantes, conduzido por pesquisadores vinculados a universidades como UCLA, Colorado e Chapman, comparou ACT e TCC em diferentes transtornos de ansiedade. As duas intervenções apresentaram melhora global semelhante ao final do tratamento. Esse resultado apoia a ACT como uma opção, mas não estabelece superioridade universal de uma abordagem. (Arch et al., 2012 — estudo original)

Meditação e mindfulness: treinando a atenção para o agora

Mindfulness, ou atenção plena, é o treino de atenção às experiências do momento presente. A prática saiu do campo espiritual e entrou nos consultórios e laboratórios: ela ajuda a desacelerar a mente “tagarela” e a reduzir a ruminação sobre o passado e a preocupação com o futuro. Você aprende a observar pensamentos e sensações ansiosas como eventos passageiros, como nuvens no céu, sem se agarrar a eles nem julgá-los. Uma revisão sistemática brasileira reuniu estudos sobre os efeitos da meditação nos sintomas de ansiedade. (Peixoto et al., 2021)

Em um ensaio liderado por Georgetown, um programa estruturado de redução de estresse baseado em mindfulness (MBSR), com oito semanas, apresentou resultado não inferior ao escitalopram na medida principal de ansiedade. O protocolo incluía orientação e prática regular; o resultado não pode ser atribuído automaticamente a qualquer aplicativo ou exercício breve. (Hoge et al., 2023 — estudo original) (Georgetown — detalhes do protocolo)

Meditação não é isenta de riscos. Algumas pessoas relatam aumento de ansiedade ou outras experiências desagradáveis. A prática deve ser adaptada quando provoca piora, sem insistência em suportar sofrimento intenso. (NCCIH/NIH)

O suporte dos medicamentos

Em casos de ansiedade moderada a grave, a medicação pode ser uma peça importante do tratamento. Os mais utilizados são antidepressivos, principalmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), como a sertralina e a fluoxetina. O nome engana: eles também têm ação ansiolítica. Atuam sobre neurotransmissores no cérebro e, com isso, podem reduzir a intensidade dos sintomas e facilitar o envolvimento na psicoterapia. (Soares et al., 2024)

Alguns cuidados são essenciais. Esses medicamentos precisam ser prescritos e acompanhados por um médico psiquiatra, levam um tempo para começar a fazer efeito, podem ter efeitos adversos e não devem ser interrompidos de uma só vez. Os benzodiazepínicos podem ser usados em crises agudas, mas exigem cautela por causa do risco de dependência. (NIMH)

Toda pessoa precisa de medicação? Não. A decisão depende da avaliação, das preferências, do impacto dos sintomas e de outras condições de saúde. Psicoterapia, medicamentos ou a combinação dos dois podem ser indicados, e não existe uma combinação obrigatória para todos os casos. Para muitas pessoas, associar psicoterapia e medicação atua nos aspectos aprendidos e nos biológicos do problema; meditação e atividade física entram como complementos para a saúde mental em geral. (NIMH)

Um recado para você que está lendo

Se você se reconheceu em várias dessas situações, respire fundo agora. Inspire devagar e solte o ar lentamente.

Sentir ansiedade não é sinal de fraqueza, não é drama nem “falta do que fazer”. Seus sentimentos são reais e merecem respeito e cuidado. Muita gente trava batalhas internas que ninguém vê, e milhões de pessoas no Brasil e no mundo compartilham dessa experiência. As noites mal dormidas, o cansaço que parece não ter fim, o medo que paralisa e a sensação de estar sempre em alerta são exaustivos. Existe cuidado possível, e o primeiro passo é pedir ajuda.

Conversar com um psicólogo ou psiquiatra não é atestado de que algo está “quebrado” em você. É um gesto de coragem e de cuidado consigo.

Enquanto a ajuda profissional não chega, experimente algo simples hoje: por cinco minutos, sente-se em um lugar tranquilo, feche os olhos e preste atenção na respiração. Se pensamentos ansiosos vierem (e eles virão), apenas observe, como quem vê folhas passando por um rio, e traga a atenção de volta para o ar que entra e sai. Isso não resolve tudo, mas pode ser uma primeira semente de autocuidado.

Você não é a sua ansiedade. Ela é algo que você sente, mas não define quem você é.

Qual pode ser o próximo passo?

Anote situações em que a ansiedade aparece, o que você passa a evitar e como isso afeta sua rotina. Esses exemplos ajudam a formular a queixa na consulta. Você não precisa esperar que o sofrimento se torne incapacitante para pedir uma avaliação.

Perguntas frequentes

Sentir ansiedade significa ter um transtorno?

Não. A ansiedade também ocorre em situações comuns. Persistência, intensidade, contexto e prejuízo funcional precisam ser avaliados em conjunto. (NIMH)

ACT é a mesma coisa que tentar pensar positivo?

Não. A ACT envolve aprender a lidar com pensamentos e emoções e agir em direção ao que importa, mesmo na presença de desconforto. (NIMH)

Meditação substitui psicoterapia ou medicação?

Não se deve fazer essa substituição por conta própria. Pesquisas com programas estruturados não demonstram que qualquer prática individual substitua o tratamento indicado para cada pessoa. (Hoge et al., 2023; publicação on-line em 2022)

Preciso esperar uma crise para procurar psicoterapia?

Não. Quando a preocupação ou a evitação interfere na vida, já é pertinente conversar com um profissional sobre avaliação e possibilidades de cuidado. (NIMH)

Referências e leitura complementar

Thaize NettoPsicóloga clínica · CRP 06/127649 · Barueri, Jandira e on-line